
Vinho Cruel Inimigo
Completo Criminoso
Como prova do teu delito
Tu és réu e eu queixoso
1ª
O teu espírito forte
Causa tal influência
Que ao sábio insufle a ciência
E ao são adquire a morte
O Marinheiro perde o Norte
Quando navega contigo
Arriscando a todo o perigo
Vive aquele que lhe quer bem
E feliz não fazes ninguém
Vinho cruel inimigo
2ª
Mesmo a si próprio se infama
O que por ti se apaixona
Honra e crédito te abandona
A pessoa que te ama
Como a árvore perde a rama
Perde o homem o seu ditoso
Tu voltas ao venturoso
A cabeça para os pés
E ninguém duvida que és
Completo criminoso
3ª
A Noé por se embriagar
Logo por terra o deitaste
Em triste estado o deixaste
Se o filho não o vai tapar
Mas por de seu pai zumbar
Logo de Deus for maldito
Segundo se acha escrito
Tu que aos homens desleixas
Até a Noé de ti fez queixas
Como prova do teu delito
4ª
Causas a má união
Entre mulher e marido
Fazes do fraco atrevido
E derrubas o valentão
Tiras o rosto afeição
Seja embora o mais formoso
Fazes do manso teimoso
Causar toda a desavença
E em vista de tanta ofensa
Tu és réu e eu queixoso
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Não clames contra o vinho
Que é uma queixa injustamente
Não manda a lei castigar
Quem está da culpa inocente
1ª
O vinho não é culpado
O rude é quem não percebe
A culpa é de quem o bebe
Em ponto demasiado
Se vez que o seu resultado
É turbulento e daninho
Se segues tão mau caminho
Exclama que te perdeste
Clama de ti que o bebeste
Não clames contra o vinho
2ª
A culpa toda é do homem
É de mim e é de ti
Que não retira a ti
Os vícios que o consomem
Vícios são leões que comem
Bens e honra a muita gente
Quem vê a causa patente
E não foge à vil desgraça
Queixa do vinho nunca faça
Que é uma queixa injustamente
3ª
Ninguém a dizer se exponha
É a sina que Deus me deu
Isso é, diria eu
A sua pouca vergonha
Que com seu contrário sonha
E até mesmo o vai procurar
Não tens nada a alegar
Não o tenha por queixoso
Porque a quem não é criminoso
Não manda a lei castigar
4ª
Seja homem ou mulher
Tem de livre a sua vontade
Digo e juro ser verdade
Se é bêbado é porque quer
Mas diz a quem não souber
Que o vinho é impertinente
Esse homem no que diz mente
Hei-de eu então responder
Só a fim de defender
Quem está da culpa inocente
(Francisco Varela)
