domingo, 5 de fevereiro de 2012

Homenagem a Francisco Varela



Música do seu filho (António Varela)
Realizadora do vídeo, neta de Francisco Varela (Rafaela Varela)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Cego e o Parvo


O cego vive com pena
E o parvo vive contente
O cego sente e não vê
E o parvo vê e não sente
(Francisco Varela)

Cruz


Calvário da minha vida
Oh grande cruz tão pesada
Perdi a fé e a esperança
Fui alguém, já não sou nada



Sou um débil moribundo
Alvejado pela sorte
O tempo em que eu era forte
Tudo acabou neste mundo
Sinto desgosto profundo
Ao ver a esperança perdida
Sinto a minha alma vencida
Numa luta desigual
Que situação infernal
Calvário da minha vida


Sinto faltar-me coragem
Para com a morte lutar
Deus deixa-me caminhar
Para a última viagem
Vou receber homenagem
Na derradeira morada
Virgem mãe imaculada
Tomai posse da minha alma
Roubas-me a vida e a calma
Oh grande cruz tão pesada


Oh meu Deus tem piedade
Destes suspiros que solto
Que eu bem sei que já não volto
A sentir felicidade
Só lá na interinidade
Onde a salvação se alcança
Eu sinto que a morte avança
Como fantasma para mim
O destino manda assim
Perdi a fé e a esperança


Já não sou quem era dantes
Sinto-me desfalecido
Hoje sou um fraco vencido
Em horas agonizantes
Vivo em aflições constantes
Nesta vida malfadada
Vejo que está aproximada
A minha última hora
Sou fumo que se evapora
Fui alguém, já não sou nada
(Francisco Varela)

Moral


Estudei a moral a fundo
Para erros não cometer
Depressa verifiquei
Como não podia ser



Empreguei toda a atenção
Usando modos perfeitos
Para viver sem defeitos
E chegar à perfeição
Reservando a ocasião
De não dar que falar ao Mundo
Nesta tarefa em profundo
Empreguei todo o cuidado
Para agradar e ser delicado
Estudei a moral a fundo


Eu estava sempre a pensar
A maneira mais segura
De não andar em censura
E de ninguém me censurar
Fiz-me velho a estudar
Este modo de proceder
Quem me havia a mim dizer
Que tinha na vida enganos
Estudando eu tantos anos
Para erros não cometer


Eu tinha resignação
Silêncio e temperança
Mas o erro veio-nos de herança
De Eva e pai Adão
A nossa constituição
Constituiu formosa lei
A este ponto que eu cheguei
Depois desta apologia
Que daqui passar não podia
Depressa verifiquei


Quando me ia acautelando
De praticar faltas menores
Caía noutras maiores
Sem as estar imaginando
Errava de quando em quando
E erro muita vez sem querer
E não há quem possa viver
Sem erros na existência
Que eu fiz comigo a experiência
Como não podia ser
(Francisco Varela)

Pedido

Eu peço a este senhor
Com o meu chapéu na mão
Por esmola ou por favor
Um bocadinho de chão



Não peço pão nem dinheiro
Peço no campo ou na serra
Um bocadinho de terra
De doze até um quarteiro
Peço como seareiro
Um bocado ao lavrador
Melhor ou mais inferior
Onde não faça diferença
E se pouca ou muita dispensa
Eu peço a este senhor


Tenha dó de quem não tem
Que tanto está precisando
Há tanto tempo que eu ando
Dia aqui e dia além
Eu fabrico a terra bem
A modos dela dar pão
E não me descuido no Verão
Em lhe vir cortar a palha
Só lhe peço uma migalha
Com o meu chapéu na mão


Comecei a pedir cedo
Ainda não tenho nada
Dei-me dessa mais delgada
Ainda que tenha arvoredo
Que eu nada me mete medo
Seja ela como for
Eu logo lhe mudo a cor
Quando a voltar do avesso
Faça-me isto que lhe peço
Por esmola ou por favor


A parelha pouco serve
Eu estou aqui sem emprego
Ainda não dei um rego
Por não ter aonde alqueive
O comer caminha leve
E o gado acaba a ração
Assim seja um relvão
Ou um arrife qualquer
Eu aceito onde me der
Um bocadinho de chão

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Ó amigo, tenho pena
Não o posso governar
Já tenho a folha marcada
Já dei a que havia a dar



Esta Semana passada
Até corriam a fama
Vinham-me acordar à cama
Já eu, não dormia nada
Apanhei uma maçada
De soar testa e molena
Numa herdade tão pequena
Como o Povo todo vê
Já não tenho que lhe dê
Ó amigo, tenho pena


Em arrifes e pontais
Nada me ficou atrás
E que muita falta me faz
Até dei terra de mais
Porque tenho os animais
Preciso de os cultivar
E não os posso encerrar
Aí num palmo de chão
Por esta mesma razão
Não o posso governar


Eu trago as minhas parelhas
Fazendo muito trabalho
E tenho apenas um retalho
Aonde trago as ovelhas
Nem que me puxem pelas orelhas
Eu é que já não dou nada
Que pelo sesmo e a estrada
Parte a terra que faço
Daqui para diante não passo
Já tenho a folha marcada


Eu ando com mil cautelas
Por causa das minhas vacas
Estão a parir e estão fracas
Preciso campo para elas
Trago o meu gado em parcelas
Que não o posso juntar
Ainda tenho que empregar
Em pastagem muita massa
Chegou a rolha a cabaça
Já dei a que havia a dar
(Francisco Varela)

Vinho


Vinho Cruel Inimigo
Completo Criminoso
Como prova do teu delito
Tu és réu e eu queixoso



O teu espírito forte
Causa tal influência
Que ao sábio insufle a ciência
E ao são adquire a morte
O Marinheiro perde o Norte
Quando navega contigo
Arriscando a todo o perigo
Vive aquele que lhe quer bem
E feliz não fazes ninguém
Vinho cruel inimigo


Mesmo a si próprio se infama
O que por ti se apaixona
Honra e crédito te abandona
A pessoa que te ama
Como a árvore perde a rama
Perde o homem o seu ditoso
Tu voltas ao venturoso
A cabeça para os pés
E ninguém duvida que és
Completo criminoso


A Noé por se embriagar
Logo por terra o deitaste
Em triste estado o deixaste
Se o filho não o vai tapar
Mas por de seu pai zumbar
Logo de Deus for maldito
Segundo se acha escrito
Tu que aos homens desleixas
Até a Noé de ti fez queixas
Como prova do teu delito


Causas a má união
Entre mulher e marido
Fazes do fraco atrevido
E derrubas o valentão
Tiras o rosto afeição
Seja embora o mais formoso
Fazes do manso teimoso
Causar toda a desavença
E em vista de tanta ofensa
Tu és réu e eu queixoso

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Não clames contra o vinho
Que é uma queixa injustamente
Não manda a lei castigar
Quem está da culpa inocente



O vinho não é culpado
O rude é quem não percebe
A culpa é de quem o bebe
Em ponto demasiado
Se vez que o seu resultado
É turbulento e daninho
Se segues tão mau caminho
Exclama que te perdeste
Clama de ti que o bebeste
Não clames contra o vinho


A culpa toda é do homem
É de mim e é de ti
Que não retira a ti
Os vícios que o consomem
Vícios são leões que comem
Bens e honra a muita gente
Quem vê a causa patente
E não foge à vil desgraça
Queixa do vinho nunca faça
Que é uma queixa injustamente


Ninguém a dizer se exponha
É a sina que Deus me deu
Isso é, diria eu
A sua pouca vergonha
Que com seu contrário sonha
E até mesmo o vai procurar
Não tens nada a alegar
Não o tenha por queixoso
Porque a quem não é criminoso
Não manda a lei castigar


Seja homem ou mulher
Tem de livre a sua vontade
Digo e juro ser verdade
Se é bêbado é porque quer
Mas diz a quem não souber
Que o vinho é impertinente
Esse homem no que diz mente
Hei-de eu então responder
Só a fim de defender
Quem está da culpa inocente
(Francisco Varela)

Baixo Alentejo e Província Algarvia


Sou o Alentejo e sou Nobre
Sempre assim o tenho sido
Tu não és nada sem mim
Tira daí o sentido



O mais pequeno celeiro
Cá dentro do meu distrito
Tem muito mais panito
Que dá um Algarve inteiro
De mim levam para o estrangeiro
Muito ferro, aço e cobre
Eu tenho que chegue e sobre
Sem pedir nada emprestado
Tenho fama em todo o lado
Sou o Alentejo e sou Nobre


Essas fábricas de moagem
Que tu tens na capital
Se não fosse o meu cereal
Já tinham tido paragem
E se hoje têm mais tiragem
Tudo por mim é fornecido
Eu estou muito bem munido
Até te forneço de palha
Eu sempre ganhei medalha
E sempre assim o tenho sido


Só em queijinhos e queijo
Eu a ti te sustentava
E ainda cá me ficava
Grande conta de sobejo
É isso que em ti não vejo
Só tens carapau ruim
Do princípio até ao fim
Sustento os meus habitantes
E os teus estão cá bastantes
Tu não és nada sem mim


Eu tenho muitas manadas
Muitas bestas e muitas vacas
E tu tens poucas e fracas
Que o trabalho as trás cansadas
Tenho carnes ensacadas
Sou de azeite abastecido
E tenho em mim escondido
Grande força de mineral
E tu a mim queres ser igual
Tira daí o sentido

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Tu és o Baixo Alentejo
E eu sou província algarvia
Eu já passava sem ti
Um ano de dia-a-dia



Tenho tudo com fartura
Muita alfarroba e figo
Tenho terras que dão trigo
E muita espécie de verdura
Tenho água da mais pura
Nascendo em qualquer brejo
Do que é teu nada invejo
Desculpa que fale assim
Eu de Verão sou um jardim
E tu és o Baixo Alentejo


Tenho milho e tenho grão
Tenho azeite e toucinho
Tenho aguardente e vinho
Tenho batata e feijão
Tenho muita embarcação
Que pescam com valentia
Prédios de galanteria
Em qualquer vila ou cidade
E faróis a electricidade
Eu sou a província algarvia


Tenho praias de cobiça
Onde tu vens passear
E tenho a trabalhar
Muitas fábricas de cortiça
Tenho praças de hortaliça
Como tu não tens aí
E tenho conservas aqui
Como em ti não existe
Tendo eu de tudo isto
Eu já passava sem ti


Tenho peixe e tenho sal
A minha maior tiragem
Tenho fábricas de moagem
Cá dentro da capital
Tenho fornos de telha e cal
E muita serralharia
Tenho em Lagos uma baía
Tudo isto Deus me deu
Passava com o que é meu
Um ano dia a dia
(Francisco Varela)