Chamo-me gato pedrês
Tu és um cão perdigueiro
Mais mereço eu num mês
Do que tu num ano inteiro
1ª
Tenho orelhas afitadas
Quase que tenho cara de gente
Sou um animal decente
Com maneiras delicadas
Há o patrão e há as criadas
Oiço eu dizer muita vez
O gatinho é tão cortês
É distinto e remexido
E pela cor do meu vestido
Chamo-me gato pedrês
2ª
Lavo tigelas e pratos
De mim ninguém se aborrece
Porque sabem o que acontece
Na casa onde não há gatos
É tudo pelo vão dos ratos
Que destroem um celeiro
Por isso não há dinheiro
Que pague a minha beleza
E tu és feio de natureza
Tu és um cão perdigueiro
3ª
Eu sou de pouco alimento
Com qualquer sopita passo
Com as caçadas que faço
Quase que dá para meu sustento
E tu comes mais que um cento
Já não falo em dois ou três
Mais despesa que uma rês
Fazes tu oh meu pileco
Do que tu vales num século
Mais mereço eu num mês
4ª
Jogo saltos pró telhado
Não me ganhas em saltar
Até no meu próprio miar
Sou deveras engraçado
Eu mio e dobro o miado
Quando ando com o Janeiro
Eu até vou ao palheiro
Desinçar a ratazana
Mais valho eu numa semana
Do que tu num ano inteiro
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Ouve lá oh meu ranhoso
Faço-te ver a verdade
Só me ganhas em guloso
Que eu só uso lealdade
1ª
Eu sou o maior amigo
Que têm os meus patrões
Em dotes e perfeições
Não te compares comigo
Eu não mereço castigo
Porque sou um animal bondoso
Até me encho de nervoso
Parando a caça agachada
Tu não me ganhas em nada
Ouve lá oh meu ranhoso
2ª
3ª
Todo o ladrão se desvia
Quando eu estou de sentinela
No ladrar não tenho panela
Ladro de noite e de dia
Eu ladro para dar ousadia
Que eu nunca fui preguiçoso
E tu andas feito manhoso
Para pilhares alguma presa
Pulas por cima da mesa
Só me ganas em guloso
4ª
Estás-te aí a bazofiar
Com esses miados teus
Mais vale um ladro dos meus
Do que todo o teu miar
Com uma orelha ou o par
Te tapo mais de metade
Se te perco a amizade
Mato-te se te encontro só
Não te mato que tenho dó
Que eu só uso lealdade
(Francisco Varela)
