sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Baixo Alentejo e Província Algarvia


Sou o Alentejo e sou Nobre
Sempre assim o tenho sido
Tu não és nada sem mim
Tira daí o sentido



O mais pequeno celeiro
Cá dentro do meu distrito
Tem muito mais panito
Que dá um Algarve inteiro
De mim levam para o estrangeiro
Muito ferro, aço e cobre
Eu tenho que chegue e sobre
Sem pedir nada emprestado
Tenho fama em todo o lado
Sou o Alentejo e sou Nobre


Essas fábricas de moagem
Que tu tens na capital
Se não fosse o meu cereal
Já tinham tido paragem
E se hoje têm mais tiragem
Tudo por mim é fornecido
Eu estou muito bem munido
Até te forneço de palha
Eu sempre ganhei medalha
E sempre assim o tenho sido


Só em queijinhos e queijo
Eu a ti te sustentava
E ainda cá me ficava
Grande conta de sobejo
É isso que em ti não vejo
Só tens carapau ruim
Do princípio até ao fim
Sustento os meus habitantes
E os teus estão cá bastantes
Tu não és nada sem mim


Eu tenho muitas manadas
Muitas bestas e muitas vacas
E tu tens poucas e fracas
Que o trabalho as trás cansadas
Tenho carnes ensacadas
Sou de azeite abastecido
E tenho em mim escondido
Grande força de mineral
E tu a mim queres ser igual
Tira daí o sentido

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Tu és o Baixo Alentejo
E eu sou província algarvia
Eu já passava sem ti
Um ano de dia-a-dia



Tenho tudo com fartura
Muita alfarroba e figo
Tenho terras que dão trigo
E muita espécie de verdura
Tenho água da mais pura
Nascendo em qualquer brejo
Do que é teu nada invejo
Desculpa que fale assim
Eu de Verão sou um jardim
E tu és o Baixo Alentejo


Tenho milho e tenho grão
Tenho azeite e toucinho
Tenho aguardente e vinho
Tenho batata e feijão
Tenho muita embarcação
Que pescam com valentia
Prédios de galanteria
Em qualquer vila ou cidade
E faróis a electricidade
Eu sou a província algarvia


Tenho praias de cobiça
Onde tu vens passear
E tenho a trabalhar
Muitas fábricas de cortiça
Tenho praças de hortaliça
Como tu não tens aí
E tenho conservas aqui
Como em ti não existe
Tendo eu de tudo isto
Eu já passava sem ti


Tenho peixe e tenho sal
A minha maior tiragem
Tenho fábricas de moagem
Cá dentro da capital
Tenho fornos de telha e cal
E muita serralharia
Tenho em Lagos uma baía
Tudo isto Deus me deu
Passava com o que é meu
Um ano dia a dia
(Francisco Varela)