sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pedido

Eu peço a este senhor
Com o meu chapéu na mão
Por esmola ou por favor
Um bocadinho de chão



Não peço pão nem dinheiro
Peço no campo ou na serra
Um bocadinho de terra
De doze até um quarteiro
Peço como seareiro
Um bocado ao lavrador
Melhor ou mais inferior
Onde não faça diferença
E se pouca ou muita dispensa
Eu peço a este senhor


Tenha dó de quem não tem
Que tanto está precisando
Há tanto tempo que eu ando
Dia aqui e dia além
Eu fabrico a terra bem
A modos dela dar pão
E não me descuido no Verão
Em lhe vir cortar a palha
Só lhe peço uma migalha
Com o meu chapéu na mão


Comecei a pedir cedo
Ainda não tenho nada
Dei-me dessa mais delgada
Ainda que tenha arvoredo
Que eu nada me mete medo
Seja ela como for
Eu logo lhe mudo a cor
Quando a voltar do avesso
Faça-me isto que lhe peço
Por esmola ou por favor


A parelha pouco serve
Eu estou aqui sem emprego
Ainda não dei um rego
Por não ter aonde alqueive
O comer caminha leve
E o gado acaba a ração
Assim seja um relvão
Ou um arrife qualquer
Eu aceito onde me der
Um bocadinho de chão

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Ó amigo, tenho pena
Não o posso governar
Já tenho a folha marcada
Já dei a que havia a dar



Esta Semana passada
Até corriam a fama
Vinham-me acordar à cama
Já eu, não dormia nada
Apanhei uma maçada
De soar testa e molena
Numa herdade tão pequena
Como o Povo todo vê
Já não tenho que lhe dê
Ó amigo, tenho pena


Em arrifes e pontais
Nada me ficou atrás
E que muita falta me faz
Até dei terra de mais
Porque tenho os animais
Preciso de os cultivar
E não os posso encerrar
Aí num palmo de chão
Por esta mesma razão
Não o posso governar


Eu trago as minhas parelhas
Fazendo muito trabalho
E tenho apenas um retalho
Aonde trago as ovelhas
Nem que me puxem pelas orelhas
Eu é que já não dou nada
Que pelo sesmo e a estrada
Parte a terra que faço
Daqui para diante não passo
Já tenho a folha marcada


Eu ando com mil cautelas
Por causa das minhas vacas
Estão a parir e estão fracas
Preciso campo para elas
Trago o meu gado em parcelas
Que não o posso juntar
Ainda tenho que empregar
Em pastagem muita massa
Chegou a rolha a cabaça
Já dei a que havia a dar
(Francisco Varela)